3.8.06

Eugénio Tavares (1868-1930)

Eugénio de Paula Tavares nasceu na Ilha Brava, Cabo Verde, no dia 18 de Outubro de 1867, filho de Eugénia Roiz Nozolini Tavares e de Francisco de Paula Tavares. A mãe não sobreviveu às complicações do parto e morreu de febre púbica. O pai foi para a Guerra em Guiné e morreu quatro anos depois. Eugénio é adotado por José e Eugénia Martins de Vera Cruz.

Dona Eugénia foi a mãe adotiva que acompanhou toda a vida do poeta, a quem ele chamava "Badinha". No final do século XIX, Ilha Brava foi a estância de cura e de repouso para toda a costa da Guiné e Gâmbia. Autêntico refúgio de europeus, residentes no arquipélago e na vizinha costa de África. Pelos meados do século XIX, sendo a ilha residência de Governadores. Os seus funcionários leccionavam disciplinas diversas. A formação cultural do poeta foi influenciada por grandes vultos da cultura caboverdeana da época, como Guilherme Dantas, Augusto Barreto e Maria Luísa de Sena Barcelos.

Hino Bravense

O' Brava amada, meu ninho em flor,
O' pequenina e humilde Brava!
Coroada outrora de fogo e lava,
Hoje teu nimbo é o nosso amor!
Terra crioula, terra natal,
- Tamanho e forma de um coração! -
Que Deus te guarde de todo mal,
Que em torno a ti o Mal ruja em vão.
Filha da lava e filha do mar,
Que a lava aquece e o mar rebeija,
Tua alma, ó Brava, como que adeja,
Asa de sonho solto no ar.
Nunca amainaste na tempestade
As velas cândidas da clara esperança,
Nunca deixaste de, na bonança,
Ser forte e doce como a saudade!
Coro
Teus filhos amam o largo mar,
O mar que os leva e que os traz de espaço:
Choras, se partem p'ra não voltar,
Cantas, se voltam ao teu regaço!


Eugénio foi um auto-didacta, em grande parte graças à biblioteca onde se criou.
Ainda muito cedo, por volta dos 12 anos de idade, Eugénio inicia-se na poesia. Os seus poemas corriam de casa em casa, de mão em mão, ganhando graça e notoriedade na Ilha Brava, num meio onde a poesia era muito cultivada. Entretanto, aprendera a tocar a guitarra portuguesa e diz-se que apareceram nessa altura suas primeiras composições musicais.
Com quinze anos, Eugénio Tavares fez a sua estréia literária no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiras, apresentado pelo poeta Luís Medina Vasconcelos.
Aos 20 anos des idade, conseguiu um emprego numa casa comercial de Mindelo em São Vicente.
A aridez e pouca vegetação da Ilha de São Vicente não favoreceu em imediato o seu povoamento. Mas, a importância do Porto Grande tornou-a, logo em seguida, a segunda maior população de Cabo Verde. Mindelo já era um espaço de cultura e universalidade, uma encruzilhada de costumes e calor humano onde o jovem vai despertar para os grandes rumos traçados pelo seu destino.

José Osório de Oliveira conta como nasceu a “Canção ao Mar – Mar Eterno” de Eugénio Tavares: “Um dia aportou à ilha Brava o iate Fabulous. Uma jovem americana acompanhava o pai, em viagens de estudos e recreio. Eugénio, belo moço de tez branca, gentleman de porte distinto mas sem meios de fortuna e cabo-verdiano, apaixonou-se e foi correspondido. Foi o primeiro dos grandes amores da sua vida. Mas, no dia em que o americano descobriu a paixão romântica da filha, o iate pela calada da noite levantou o ferro e desapareceu no horizonte sem que o jovem pudesse despedir-se da sua amada. Eugénio, pela manhãzinha, como era seu costume, dirigiu-se ao miradouro da Cruz Grande para rever a Furna e o Fabulous. Perante a Furna deserta, Eugénio revolta-se e inconsolável recorre como era seu hábito à sua guitarra e compõe o Mar Eterno - Canção ao Mar.”$


Canção ao Mar - Mar Eterno

Oh mar eterno sem fundo sem fim
Oh mar das túrbidas vagas oh! Mar
De ti e das bocas do mundo a mim
Só me vem dores e pragas, oh mar
Que mal te fiz oh mar, oh mar
Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar
Quebrando as ondas tuas
De encontro às rochas nuas
Suspende a zanga um momento e escuta
A voz do meu sofrimento na luta
Que o amor ascende em meu peito desfeito
De tanto amar e penar, oh mar
Que até parece oh mar, oh mar
Um coração a arfar, a arfar
Em ondas pelas fráguas
Quebrando as suas mágoas
Dá-me notícias do meu amor
Que um dia os ventos do céu, oh dor
Os seus abraços furiosos, levaram
Os seus sorrisos invejosos roubaram
Não mais voltou ao lar, ao lar
Não mais o vi, oh mar
Mar fria sepultura
Desta minha alma escura
Roubaste-me a luz querida do amor
E me deixaste sem vida no horror
Oh alma da tempestade amansa
Não me leves a saudade e a esperança

Que esta saudade é quem, é quem
Me ampara tão fiel, fiel
É como a doce mãe
Suavíssima e cruel

Nas mágoas desta aflição que agita
Meu infeliz coração, bendita!
Bendita seja a esperança que ainda
Lá me promete a bonança tão Linda

Casa-se com Dona Guiomar Leça. Em 1895, é nomeado recebedor do Conselho Tarrafal. Aqui começa a grande tragédia. A Repartição Central o declara culpado de fraude. Eugénio foi suspenso e processado. Ele não foi preso, porque conseguiu fugir para os Estados Unidos.

A minha casa

Ó minha pobre casa! Estância honesta!
Minha felicidade inigualada!
Quem me dera passar, nesta jornada,
À tua sombra a vida que me resta!
Tudo me fere, tudo me molesta!
Longe de ti, minha pobreza amada!
O sol mais claro não me alegra;
Nada me aquece e me ilumina a fronte mesta!
O meu destino, túrbido, mesquinho,
Na saudade dos olhos siderais
Da companheira que ficou no ninho,
Arrasta-me a visões de dor, mortais:
E penso que talvez neste caminho
Não paro à tua sombra nunca mais!

Despedida

Dirás à minha pobre mãe, coitada!
Que me perdoe não ir, na despedida,
Beijar-lhe a grave fronte tão querida,
Beber-lhe o santo olhar, bênção sagrada,
Porque me traz esta alma tão quebrada
A dor inconsolável da partida
Que, triste como os que se vão da vida,
Nem quero ver-lhe a fronte magoada.
Dirás que levo uma saudade funda
dentro do coração angustiado!
Que a dor é tanta, em suma, tão profunda,
Que me parece, até ter começado
A morrer, neste lúgubre momento
Em que o navio esfralda asas ao vento.

Eugénio Tavares
12 de Junho, 1900

Exilado

Pensa no que há de mais sombrio e triste;
Terás, destes meus dias vaga imagem;
Soturnos céus - como tu nunca viste -
Nunca os doirou o halo de uma miragem.
O sol - um sol que só de nome existe-
Envolto na algidez e na brumagem
Dum frio como tu nunca sentiste,
do nosso sol parece a morta imagem
Imerge o retransido pensamento
Nas noites mais escuras, mais glaciais,
Prenhes de raios e vendavais;
Verás que anos de dor, esse momento
Passado, na saudade e no penar,
Longe do sol vital do teu olhar!
Eugénio Tavares
Fairhaven, 1900

Tempos depois, Eugénio volta para Cabo Verde. Ele foi julgado e absolvido. Eugénio voltou à Ilha da Brava definitivamente em 1922, onde exerce o professorado e se dedica a escrita. Ele funda a Troupe Musical Bravense para difundir as mornas através dos tempos.

Triste Regresso

A José Bernardo Alfama

Dentro da claridade plumbea da manhã
A Ilha, sobre o mar, lembra uma catedral.
As nuvens em silêncio imergem devagar
Qual um fumear de incenso
Num ascetismo intenso,
Num perfume subtil de velha fé cristã.
Pelas naves glaciais da brónzea catedral.
A Ilha, sobre o mar.
E sobem vagamento em lágrimas banhando
A dura fronte augusta e grave dos rochedos.
Bebe em fundo silêncio a terra fulva, adusta.
A lágrima que cai;
Ea nuvem passa, vai.
Numa insondável mágoa imensa rorejando.
Em gélido suor,dos túrbidos rochedos
A dura fronte augusta.
Mas, já da opa cinzenta a Ilha se desnuda.
Beija-a com fúria o sol, dentes de fogo a comem.
O vento reduziu-lhe a trapos o lençol.
Emerge, e se acentua.
Do mar, móvel, nua,
Trânsida de tristeza, em uma angústia muda...
E, enquanto ao longe as nuvens álgidas se somem
Beija-a com fúria o sol.
Da c'roa do plató à fímbria da leveza
As árvores sem vida estorcem-se de sede.
E o sol - bem como um rei fanático, homicida, -
Fustiga-as a matar.
E ri-se ao incendiar
Os ramos - como mãos erguidas de quem reza -
E as folhas - como mãos abertas de quem pede -
Das árvores sem vida.
Em fim, o meu Navio, aos poucos, se aproxima.
Nos tristes olhos meus em lágrimas, rebrilha
A dita de ancorar após mil escarcéos.
E, pois que as nuvens vão
Fugindo na amplidão
Sem que uma gota de água enviem lá de cima.
Darei à tua sede o pranto - oh minha IIha!
Dos tristes olhos meus.

Na velhice, ele continua a escrever e compôr. Nessa época, ele escreve as mornas, que constam entre as melhores: “Bidijça” e “Nha Santana”.

Morna de bijiça

Bidjiça é um amostra certo
Pâ no conta co morte perto:
Mas, sol de entardecer de idade,
Sol brando é el, sol de sodade.

Sol brando ca ta quêma.
Pele de rosto de nha crectheu.
Sol brando, el é sol de gosto
Pa ta lumiano porta de céu.

Amor é quel que ama co gosto:
Na boca mel, lebe na peto...
Amor é mar qualdo el estli manso:
Guemê co gosto, amá na descanço.

Mar manso é quel mar de nadâ,
Mar brabo é quel mar de matâ
Amor, ai! quando el ê mar brabo,
Se el ca matal el ta derrubado...

Amor, depois de um certo idade,
Quando el sintâ co companhero,
Ninguém câ tâ erguê promero,
Sem que to dós mata sodade...

Sintâ junto, labantâ junto,
Es ê que ê sabe, es ê que ê dreto...
Sintâ co amor, gosâ co assunto,
Coraçam lebe, graça na rosto...

Cretcheu é na debagarinho,
Na paz, na graça, na getinho:
Amor, pâ bo sentil sê gosto,
É na sombrinha de sol posto...

Mas, quando el é de barbatón,
É sem valor, sem tom nem som...
Nha fidjo obi, obi um consejo:
Amor más doce, é amor de bejo...

No dia 1° de Junho de 1930, de manhã, Eugénio estava conversando com alguns amigos, os quais lhe contaram uma hístória ridícula que estava se passando na regime da Colônia. Nesse mesmo momento, quando os amigos estavam rindo pela história, Eugénio morre fulminado por uma angina pectoris.

A Morna vista por José Osório de Oliveira

José Osório de Oliveira, intelectual português que viveu em Cabo Verde ao tempo de Eugénio Tavares. Em vida, Eugénio entregou-lhe o manuscrito das " Cantigas Crioulas" que, após a morte do Poeta, mandou publicar. O volume foi publicado em Lisboa, na Livraria Rodrigues, em cerca de 1932.

"Morna é o nome que designa, ao mesmo tempo, a dança e as canções típicas de Cabo Verde. Ritmo do baile, palavras e música das canções, são coisas inseparáveis. Não se trata, com efeito, duma dança acompanhada de palavras como qualquer outra. O facto do povo de Cabo Verde dançar a morna cantando (repare-se que não se trata duma dança de roda), indica, claramente, que, para ele, gestos, letra e melodia são formas indistintas do mesmo ritmo interior.

Nunca, com efeito, a alma de um povo encontrou, tão perfeitamente, a sua expressão, numa única manifestação de arte. Cabo Verde não tem, de facto, mesmo em estado rudimentar, artes plásticas e decorativas que caracterizem a sua gente. Quanto à literatura e à música, todas as suas manifestações peculiares tomam a mesma forma.

Pode afirmar-se, portanto, que a morna resume em si todos os sentimentos e condensa todas as aspirações artísticas dos cabo-verdianos."

A força de cretcheu

Ca tem nada na es bida
Mas grande que amor
Se Deus ca tem medida
Amor inda é maior…
Maior que mar, que céu
Mas, entre tudo cretcheu
De meu inda é maior
Cretcheu más sabe,
É quel que é di meu
Ele é que é tchabe
Que abrim nha céu…
Cretcheu más sabe
É quel qui crem
Ai sim perdel
Morte dja bem
Ó força de chetcheu,
Que abrim nha asa em flôr
Dixam bá alcança céu
Pa'n bá odja Nôs Senhor
Pa'n bá pedil semente
De amor cuma ês di meu
Pa'n bem dá tudo djente
Pa tudo bá conché céu

As Crioulas

A Virgem Maria
Pura Mãe de Deus
Seria crioula?
Sim; nos sonhos meus,
Contemplo-a, morena,
Filha de plebeus,
Morena crioula
Rainha dos Céus...

Nos seus tristes olhos
Boiados de amor,
Há consolações,
Para toda a dor. A doce crioula
Pequenina flor
É como a violeta no aroma, na cor.


Links:
As mornas e as notas biográficas foram extraídas da página oficial de Eugénio Tavares, bem documentada com fotos e testemunhas: http://www.eugeniotavares.org/